5 Esqueci meu carro
Hoje,
que as memórias se esvaem
e os amigos fogem de mim,
só tenho minhas poesias
como amigas
confidentes,
mesmo assim,
impertinentes,
sem rima e vazias
não inspiram a menor confiança:
elas também me traem.
Ivone Boechat

Eu estava em casa conversando com conhecidos e abri o vidi-fone no aplicativo de notícias individuais do momento. Na tela, projetada na retina, como em um jogo de cassino, ao rolar os olhos para baixo apareceu uma nova notificação. Era o vídeo de um amigo curtindo a vida? Não, mas era um vídeo de um idoso sorridente por volta dos 70 anos.
— Existe idade para tudo. Amanhã, vou tirar minha carteira de motorista — dizia com empolgação o futuro habilitado na imagem projetada em minha retina, e continuou: — Achei este carro no estacionamento do shopping e, como ninguém apareceu para reclamá-lo, decidi que vou aprender a dirigir e ficar com ele. Já não era sem tempo. Sempre sonhei em dirigir.
Ao analisar melhor o vídeo, depois de alguns zooms, percebi que era o meu carro, o qual tinha perdido há alguns meses. Não me recordava quando nem onde. Após viajar por muitas cidades, a memória já não era mais a mesma. Porém, era realmente o veículo de estimação. Tenho dois, e um deles eu havia esquecido em algum lugar. Falei com o secretário ao telefone que prontamente confirmou, eu tinha perdido aquele carro fazia poucos meses.
No vidi-fone, iniciei uma chamada de voz para o sorridente.
— Cidadão, este carro é meu, não tire sua carteira de motorista, irei buscá-lo assim que possível. — falei com entusiasmo.
— Eu encontrei o carro há uma semana, ele está na oficina consertando. — retrucou o idoso.
— O carro é novo e está em ótimas condições. Portanto, não precisa de conserto.
— Mas ele não ligava, quando eu o encontrei.
— Provavelmente porque a bateria descarregou. Irei amanhã mesmo pegá-lo.
O idoso ficou apático, sua felicidade tinha desaparecido. Infelizmente para ele, o sonho acabou. Mas para mim restava o regozijo. Resgatei meu bem precioso. Atualmente, um bem como este custa quase o preço de um rim. É justo que os bens retornem para o uso de seus proprietários.
O idoso ainda falou algo sobre “achado não é roubado”. Mas não havia lei que desse respaldo a seus argumentos. Fingi-me de cidadão conhecedor de direitos e disse que iria pegar o veículo amanhã mesmo e que, caso ele se recusasse, eu levaria a polícia.
Falei com o secretário, que prontamente irá viajar para resgatar o veículo. Nos meus 90 anos, ainda espero com saudade colocar as mãos no seminovo que comprei, mas não me lembro onde… nem quando…