2  Filhos de Luna

O átomo de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro

Schiller

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Zé Doidinho acordou sonolento e leu a pichação em neon azul, “também sou filho do dono”. Alguém que dormira ali tinha provavelmente escrito aquilo na parede destruída. Aquela frase o motivou.

O lixão de material metálico onde dormia cintilava com um brilho intenso que o cegava. Era um jovem esperto, sobreviver sem morar em um condapt e sem progenitores em Luna é para poucos. Calçou seus patins surrados e correu em alta velocidade para a quadra de entretenimento.

O sol crescia no horizonte e a redoma de Luna convertia a radiação em uma tonalidade alaranjada. A redoma estava rachada devido à última tentativa de girar Nova Europa, mas ninguém se importava. Nos centros de recreação, que eram oferecidos para socialização entre os humanos, oferecia-se uma ração à base de trigo. Como chegou cedo, foi um dos primeiros a jogar contra outros jovens de sua idade.

O jogo lembrava um futebol na terra, com a diferença de que eram Três contra Três em um espaço relativamente pequeno e era jogado com tacos de aço e patins em um terreno plano magnetizado que facilitava a fixação dos patins devido à baixa gravidade.

Seis jovens jogavam, era um corre-corre destrambelhado. Três humanos não modificados e três com modificações robóticas em partes distintas do corpo. Sentados no canto, outros jovens assistiam ao jogo despreocupados e aguardavam a sua vez de entrar em campo. Não havia adultos ao redor, pois eles não apareciam de dia, encontraram algo enterrado em Luna. Era algo que afetava a reprodução humana, por isso os adultos evitavam andar fora dos prédios do Governo Central.

O mais alto dos jogadores empurrou com seu próprio peso Zé Doidinho e o grude magnético de desfez. Zé Doidinho só não partiu a cabeça no chão porque a grade que cobria os cantos amorteceram sua queda. Seu coração acelerou. Sem pensar muito, com punhos levantados e ódio no olhar, partiu para o ataque contra o oponente que parecia duas vezes mais forte.

— Zé Doidinho será estraçalhado, coitado — disse um jovem que estava aguardando a sua vez de entrar em campo.

— Vamos parar com isso! — Falou quem estava segurando a bola.

— Quebra a espinha ele.

Porém, essa disputa já tinha vencedor. O oponente de Zé Doidinho treinava boxe com seu irmão mais velho. Enquanto um girava socos e pontapés ao vento, o outro procurava uma boa entrada para bater no queixo. Para um lado, tropeçou o magricela, cambaleando, para o outro, a pistola laser que Zé Doidinho carregava na cintura. O que era euforia virou espanto.

O trabuco caiu a uma pequena distância. Em poucos segundos, a dúvida dos outros era ficar ou correr. Rapidamente Zé Doidinho o pegou e colocou na cintura. Não lhe passara em nenhum momento usá-lo. Recebera um murro e estava envergonhado, mas sua pistola não era para brincadeiras. Era uma garantia de que teria o que quisesse quando o momento fosse oportuno. Foi um presente de seu tio, Cabeleira. Seu tio pediu para guardar enquanto fugia de uns problemas antigos da terra-dois, que não lhe foram bem explicados.

Com o laser guardado, Zé Doidinho rapidamente se levantou, limpou um pouco do sangue da boca e voltou a trocar murros. Todos os outros estavam paralisados, o que acontecera estava além de seus eventos diários. Devido ao susto, o jogo acabou. Em algum momento, ambos se afastaram e começaram a se xingar.

Alguns meses depois, Zé Doidinho foi perfurado pela polícia de Luna, quando estava em cima de uma estrutura metálica, prestes a saltar por cima de um condapt. Ele roubara um filhote de gato-do-céu, um híbrido de felino e chimpanzé, muito desejado em Nova Europa.

A ideia era vender o animalzinho e fazer uns trocados para uma nova moradia. Foi tudo rápido, ele viu uma oportunidade, pulou o muro e saiu com o filhote debaixo do braço, correndo com seus patins. Porém, logo em seguida, foi perseguido por homens que saíram em sua procura. Por azar, no dia anterior, ele havia emprestado sua pistola para um dos irmãos-vida-louca que disseram que iriam devolver no mesmo dia.

Zé Doidinho não queria ter quebrado a confiança de seu tio, foi seu último pensamento enquanto seu sangue escorria para um bueiro misturado com o musgo da calçada.

Rapidamente a polícia de Luna apareceu e levaram seu corpo para o departamento de pesquisa e inovação.

— Há quanto tempo ele morreu — disse um homem alto coberto com uma roupa extremamente branca da cabeça aos pés.

— A pouco menos de meia hora.

— O cérebro continua relativamente preservado, retirem-no. Descartem o corpo em algum lugar em Nova Europa.