3  O Sacrifício

A coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele

Aristóteles

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Gustavo iniciava mais uma patrulha de olhos bem abertos. Era um segurança treinado para fornecer força de nível militar para corporações ricas o suficiente para comprá-lo. Enquanto caminhava em sua ronda, ele percebe que o zumbido fraco da maquinaria da cidade é interrompido pelo som de metal retorcido.

Gustavo se vira para ver um grupo de manifestantes, seus rostos mascarados, tentando arrombar o contêiner de transporte do rico empresário. Um deles atira um coquetel molotov em direção ao contêiner.

As chamas iluminam a noite, lançando longas sombras nos rostos dos manifestantes. Eles empunham chaves inglesas, canos e bombas incendiárias. Lutavam por melhores condições de trabalho.

Gustavo correu em direção aos manifestantes, seus passos ecoando na calçada. As chamas do coquetel molotov piscaram nos sensores ópticos conforme ele se aproximava. Uma das figuras mascaradas se vira com uma chave-inglesa na mão. Gustavo estende a mão e agarra o pulso deles, sentindo o metal frio da ferramenta contra sua pele sintética, seu treinamento em artes marciais avançado era obrigatório entre os patrulhadores. Os olhos do manifestante se arregalam de surpresa.

Gustavo interrompe solta o pulso do manifestante. Os olhos dele se estreitam em suspeita enquanto o criminoso recua, colocando uma distância entre ambos. Os outros baderneiros param, observando atentamente. O crepitar das chamas e os sons distantes da cidade enchem o ar. Gustavo sente o calor do fogo em sua pele coberta por escamas sintéticas e percebe que tem uma escolha a fazer. Enquanto Gustavo considera suas opções, saca sua pistola laser, sentindo a suave sensação de poder familiar em sua mão. As expressões dos manifestantes mudam, dava para sentir o medo em seus olhos.

O preparado segurança mira sua pistola no grupo de manifestantes e o ponto vermelho do sistema de mira dança por entre a multidão. Ele aperta o gatilho e um raio brilhante de energia é disparado, cortando o ar com um chiado. O raio atinge um dos manifestantes, que solta um grito de dor enquanto é lançado para trás, caindo no asfalto. Os outros manifestantes ficam congelados no lugar por um instante. Subitamente saem de seu estupor e se dispersam, desaparecendo nas sombras. Deixando Gustavo sozinho com o manifestante ferido.

Gustavo coloca o pé no pescoço manifestante ferido, sua pistola laser ainda apontada para ele. As chamas do coquetel molotov lançam um brilho assustador ao redor da cena. O manifestante geme de dor, segurando com a mão em seu peito esquerdo onde o raio laser atingiu.

Apesar da animosidade que Gustavo sente pelos baderneiros, ele ainda não consegue acabar com a vida deles a sangue-frio. Ele baixa a pistola laser, tomando uma decisão. Os olhos do manifestante ferido estão arregalados de medo, e ele choraminga baixinho. Gustavo decide poupar a vida dele, optando por pedir assistência médica. O corpo do manifestante relaxa visivelmente, o alívio toma conta de suas feições ao perceber que recebeu uma segunda chance.

Gustavo contata rapidamente os serviços de emergência da cidade, solicitando atendimento médico para o manifestante ferido. Enquanto espera a ajuda chegar, ele fica de guarda, garantindo que a cena permaneça segura e protegida. Porém, de súbito, Gustavo ouve passos se aproximando. Seus sensores ópticos examinam a área e ele avista um grupo de figuras se movendo em sua direção com movimento mais deliberados e ameaçadores.

Conforme o grupo avança, Gustavo levanta sua pistola laser, pronto para se defender. Mas antes que ele possa reagir, um deles atira uma granada. Gustavo tenta desviar, mas ela detona ao seu lado, enviando uma onda de choque de força pelo ar. Gustavo sente seu braço se afastar do seu corpo, uma explosão de faíscas e fumaça saindo das peles, ossos e músculos. Sua esposa não lhe receberá em casa hoje para o jantar, pensou, ao menos não inteiro.

Gustavo acordou no hospital ao lado de sua amada esposa.

- Querida, onde está nosso filho? — perguntou Gustavo.

- Ele levou um tiro no peito durante uma rebelião com os amigos, mas está descansando. — respondeu sua esposa demonstrando estar aliviada.

Depois disso, Gustavo dormiu profundamente. Dormiu como nunca tinha feito antes, o sono dos justos. A falta de um braço não era nada mais, próteses biônicas ainda trazem novos recursos.