4 A Galera do Virote
Não preciso de ninguém para fazer merda comigo
Música MC Pierre

Na cidade de Recife, um grupo de três irmãos, adultos jovens e irresponsáveis, realizava pequenos delitos, roubavam revistas pornôs em banca de jornal e, outras vezes, balas e bebidas de supermercados. Chegaram a invadir uma empresa petrolífera para surfar sandboard nas dunas de Recife. Muitas vezes, saíam sem pagar de pequenos comerciantes. Andavam desafiando a lei e a ordem. Se achavam os maiorais.
A galera do virote era esperta, era sagaz. Com um carro velho e uma moto, seguiam em busca de aventuras. Em um determinado dia, esbanjavam dinheiro para o alto e corriam à noite. Enganaram um policial de trânsito se passando por militares, mijaram na rua — para o horror de senhoras que passavam no momento. O mundo era deles, a noite, um parque de diversões.
Neste dia eram os três jovens e três garotas menores de idade.
— Sei o que elas querem: droga em troca de sexo, vou buscar a cocaína e volto logo. — falou o mais velho da turma.
— A noite é uma criança — falou o mais novo.
— Hoje vamos botar pra quebrar. — e todos riam.
Quando a polícia chegou, levaram todos em cana. Os policiais já iam chegar atirando; ninguém quer arriscar sua vida à toa por vagabundo, pois poderiam estar armados. Mas como estavam em um posto de combustível que tinha câmeras e era bem movimentado, os policiais resolveram entrar com uma abordagem padrão: tapa na cara e algemas.
Os três foram acusados de terem assaltado uma lanchonete, as garotas liberadas. Não era verdade, estavam só bebendo a mais de 24 horas, mas não importava. Depois que foram presos em via pública, zombado de autoridades e incomodando moradores de bairro nobre, terem sidos levados a delegacia era, na verdade, um golpe de sorte.
Ao chegarem na delegacia foram trancafiados em uma pequena cela. Um dos presos mais antigos disse ao mais jovem do grupo para tirar o short e vestir outro que foi jogado pelo mais experiente marginal. Rapidamente, a alegria se transformou em medo e o futuro próspero em consequência.
Este foi a primeira ida e vinda deste grupo naquela delegacia, ficariam conhecidos desde aquele dia pelos policiais como a “Gangue do Virote”.
Um deles morreu cedo, o mais jovem, estava em fuga da polícia depois de um assalto a uma farmácia. Levou um tiro na perna que dilacerou sua veia femoral. Ficou rodando por diversas horas no camburão da polícia antes de ser levado ao hospital, perdeu muito sangue. Não foi dessa vez que a sorte lhe favoreceu.
Outro um pouco mais velho virou bandido de carreira, matou o filho de um advogado da região em troca de um celular, devia dinheiro a traficantes e sua única fonte de receita era o assalto. Era matar ou morrer. Sua morte já era certa, não havia escapatória, se escondeu em um barraco, tremendo e rezando, foi encontrado rapidamente por policiais bem preparados, trocou tiros com a polícia, porém, o desequilíbrio de forças era evidente, velório com caixão fechado.
No velório do irmão mais velho da gangue do virote, havia um certo alívio para os familiares mais distantes que nunca vieram saber como estava a sua vida, nem a dos seus irmãos. No funeral, o comentário era de que ele já foi tarde, pois tinha envergonhado a família. Seu núcleo familiar mais próximo não estava presente, sua mãe falecida há bastante tempo e seu pai alcoólatra, que o criou a socos e tapas, estava desaparecido.
A estupidez da juventude desorientada é maior que sua capacidade de autopreservação. Todos se achavam imortais e os maiorais. Viviam se drogando em busca de felicidade, fugindo de dores inúmeras causadas pela vida cotidiana. Uma mãe morta, um irmão doente, um pai violento, a dor de perder um amigo, a solidão, o estupro, o preconceito.
A centelha do ímpeto da juventude se fazia presente na gangue do virote. Não eram pessoas importantes para ninguém, eram vistos como insignificantes por eles próprios. Ninguém virou médico, professor nem policial. Eram simples marginais, causando problemas para a sociedade.
Um deles, o do meio, sobreviveu à adolescência. Foi morar em outro país, falando outra língua. Longe da influência do meio, seu potencial se realizou. Hoje ele tem um orfanato e cuida de crianças carentes em outro continente. Ele ensina através do esporte como canalizar essa vontade de viver em ações que desenvolvam valores e comportamentos mais produtivos para a sociedade. Sua instituição de caridade hoje é chamada de “Galera do Esporte”.