Prefácio

Lembro de ter ler livros por prazer na infância. Conhecer aquelas histórias e mundos diferentes me instigava. Recordo, com nostalgia, o encantamento dos livros-jogos de “Ian Livingstone” e “Steve Jackson”. Eles eram vendidos em sebos, suas capas eram incríveis; a possibilidade de escrever a sua própria história com esses livros marcou a minha infância.

Na escola, fui apresentado à série Vaga-lume e a alguns clássicos da literatura portuguesa. Alguns me interessavam mais que outros - e acho que é assim que deve ser. Por exemplo, “Noites na Taverna” de Álvares de Azevedo foi uma grata surpresa, nele são apresentados histórias de crimes, assassinatos, e bebedeiras.

Além disso, outros livros, como “Casa de Pensão” e “Cortiço”, também me interessavam, falar do dia-a-dia de forma quase poética, como um artista pintando um quadro de uma paisagem comum. Com estes livros, o mundo, assim como eu o percebia, ganhou um significado maior. As nuances da vida cotidiana ganharam novos contornos.

Todo esse encantamento com a leitura teve grande influência da escola e dos professores, que montaram um currículo com tais livros; dos autores que o escreveram; e dos meus pais que incentivavam. Não precisei trabalhar na infância, tive o tempo do ócio, da diversão, das amizades, do descanso, das brincadeiras, da TV, do estudo, dos videogames e da leitura.

Em meados de 1995, a internet chegou ao Brasil e com ela as possibilidades de leitura e acesso a livros aumentaram. Entrar na grande rede, falar com outras pessoas e ler livros de ficção, tais como Arthur Clark e Philip K. Dick, foi uma re-descoberta.

A escrita de Dick era rápida, cotidiana, acontecia no futuro, era como unir dois mundos, levar o leitor a outras realidades e contar as histórias de sua realidade. Pois escrever ficção é mais refletir sobre o presente do que discursar sobre o futuro. Philip K. Dick, assim como Álvares de Azevedo, não viveu para ver o reconhecimento de suas obras. Viveu as dificuldades que a maioria de nós vive, isso está nas entrelinhas de seu texto, geralmente personagens comuns, com problemas triviais, como ócio, tédio ou problemas financeiros.

Alguem em algum lugar disse que um escritor se comunica com o leitor mesmo depois de sua morte, é como viajar no tempo e no espaço. Se comunicar com outros mesmo não estando presente. Desejo que o leitor das minhas histórias se entretenham, como aconteceu comigo no passado. Se ao menos alguém se divertir com esta obra e lembrar destas histórias, já terá valido a pena.

Giseldo Neo